Osvaldo Júnior: Diante da paixão, casar é uma mera opção!

Ao participar do bloco, percebe-se a genuína sensação coletiva de alegria que transborda em cada olhar, como se todas, ansiosamente, vivessem o dia posterior da festa desejando o próximo encontro.
Apaixonadas do Forró, bloco junino que, há vinte e cinco anos, movimenta as ruas de Ribeira do Pombal. Foto: Central do Camarote

Eu quero
Que você não pense em nada triste
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer […].

Odair José

É altamente recomendável, nesta introdução, pedir licença, visto que as mulheres, em seus cotidianos e festividades, não precisam de quaisquer comentários ou percepções masculinos. Eles são sempre supérfluos. Foi a terceira vez que experimentei a travessia poético-simbólica, adornada de música e encantamento, das Apaixonadas do Forró, bloco junino que, há vinte e cinco anos, movimenta as ruas de Ribeira do Pombal, cidade do interior da Bahia, levando uma mensagem cujos efeitos são vividos a cada passo dado nas avenidas de um interior nordestino no qual se sabe sorver a essência que só o forró, com suas facetas imanentes, consegue provocar.

Em 2026, o tema envolveu o noivado, período que, culturalmente, antecede o matrimônio, a declaração do famoso “sim” diante de uma autoridade religiosa. Por isso, as noivas foram, antecipadamente, convidadas a, com direito a véu e os belíssimos adornos do vestido branco que marca o imaginário coletivo, provocar os transeuntes a um detalhe que o patriarcado fez questão de apagar: diante da paixão, o casamento é uma mera opção, que será seguida por aquelas que desejarem uma companhia pelas malhas da existência, uma vez que a melhor alternativa será sempre a felicidade, experiência sinestésica que poderá ser partilhada ou não com outra pessoa.

“Quando cheguei ao bloco fiquei, como de praxe, comovido com a força dos movimentos e performances, principalmente com a leveza que a liberdade costuma nos conceder”. Foto: Central do Camarote

Ao participar do bloco, percebe-se a genuína sensação coletiva de alegria que transborda em cada olhar, como se todas, ansiosamente, vivessem o dia posterior da festa desejando o próximo encontro. Penso que as feministas têm plena razão: a mudança de que precisamos no mundo, se liderada por mulheres, terá efeitos alvissareiros, haja vista a felicidade provocativa e envolvente que só elas, com seus poderes generativos e suas sororidades, conseguem idealizar, propor e concretizar.

Quando cheguei ao bloco, já no final de uma manhã de domingo, fiquei, como de praxe, comovido com a força dos movimentos e performances, principalmente com a leveza que a liberdade costuma nos conceder. A euforia de muitas mulheres já revelava a sensação de transbordamento por estar ali, em uma espécie de plenitude a partir da imersão em linguagens que só quem viveu pode, no mínimo, pensar em como é.

“A euforia de muitas mulheres já revelava a sensação de transbordamento por estar ali”. Foto: Central do Camarote

Venho defendendo e alimentando, por onde caminho, a ideia de que a alegria feminina necessita ser estimulada, observada e sorvida, pois os contextos que atravessam as vidas das múltiplas mulheres com as quais compartilhamos o mundo e o devir vêm se mostrando áridos e cheios de nódoas que atrapalham o viver cotidiano, carecendo, urgentemente, de superação.

Felizes dos que noivam e, por decisão pessoal, unem-se em tempos juninos, nos quais o calor das fogueiras e dos corpos humanos aquece as almas, alimenta paixões e produz desdobramentos encantatórios, dentro dos quais há espaços para partilhas e afetos genuínos, regados a cumplicidades e aprendizagens, responsáveis por alimentar cenários permeados de bonanças. Dessa vez, o véu, respeitadas as suas diversas simbologias religiosas, caiu nas mãos das Apaixonadas, revelando um casamento duradouro com as próximas edições.

“Foi a terceira vez que experimentei a travessia poético-simbólica, adornada de música e encantamento, das Apaixonadas do Forró”. Foto: Central do Camarote

A ideia do noivado, etapa anterior ao casamento, certamente foi um convite à reflexão por parte das organizadoras, uma vez que casar em meio a um destino áspero provoca decepção. O bloco e suas cenas demonstraram que a paixão é sentimento sublime, pois preenche o coração, mas muitas mulheres já descobriram que a vida só tem sentido se carregada de união, em elos constitutivos com aquilo que faz brotar o amor sem a necessidade de separação.

POST SCRIPTUM: Deve-se enaltecer a presença feminina de diferentes faixas etárias, em um belo encontro intergeracional, bem como a organização do bloco para recepcionar uma participante com mobilidade reduzida, em respeito a princípios de inclusão.

OSVALDO ALVES DE JESUS JÚNIOR é amante das letras e das narrativas. É formado em Letras Vernáculas e Pedagogia, tendo pós-graduação em Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa, Metodologia do Ensino Superior, Psicopedagogia Clínico-Institucional, e Gênero e Sexualidade na Educação. Em 2018, publicou seu primeiro livro de crônicas, Fragmentos sinestésicos. Em 2019, lançou An…danças: facetas cotidianas, obra que contém prefácio da filósofa Marcia Tiburi. Em 2021, publicou BNCC: que axé ela tem?, e em 2022 Eu não posso ler seu livro. Participa, constantemente, de antologias literárias.

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