Tem coisa que não se inventa duas vezes. Se faz uma vez, e depois ou se mantém viva ou se perde. O forró pé de serra é uma dessas coisas. Sanfona, zabumba, triângulo, e ninguém escondido atrás de um play. Num tempo em que quase tudo virou produção automática, sustentar isso de pé deixou de ser tradição e virou postura.

E não é por acaso que sobrou aqui. Euclides da Cunha carrega no nome o homem que escreveu o sertão como ninguém antes, e Canudos resistiu a poucos quilômetros daqui. Nessa terra, resistir nunca foi figura de linguagem. É herança. O Nativus do Cumbe não está inventando nada. Está fazendo o que o lugar sempre soube fazer: segurar de pé o que o mundo lá fora já tinha dado por morto.

Porque é fácil confundir raiz com saudade. Não é. Saudade é olhar pra trás. Raiz é decidir continuar fazendo a coisa difícil quando o fácil rende mais. O eletrônico se produz, é só ligar. O pé de serra se sustenta, e sustentar exige gente, presença, mão calejada e disposição de tocar ao vivo num mundo que já se acostumou a fingir.

Por isso chamo o Nativus de última resistência do forró raiz na Bahia. Não é elogio nostálgico. É reconhecimento de que ainda existe gente disposta a manter aceso o que dá trabalho manter. E o que dá trabalho manter é exatamente o que vale a pena.
Quem vive o Nativus entende. Porque enquanto a sanfona tocar e o pé bater no chão de Euclides, essa resistência não é passado que se conta. É presente que se dança.
Pedro Paixão (Peu) é publicitário e estrategista, CEO da P3X HVK, agência de comunicação e produção. À frente também da Opiniou, empresa de pesquisa de opinião e mercado, trabalha na fronteira entre o que as pessoas pensam e o que decidem fazer. Não nasceu no sertão, mas aprendeu a amá-lo, e escreve sobre ele com o olhar de quem chegou de fora e ficou pela raiz.
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