Não bastou ser irmãs e gêmeas. Larissa Telles e Laís Telles têm muito mais em comum do que esse texto é capaz de revelar. Com apenas 22 anos, gostam de café, de escrever, de Skakespeare, de Clarice Lispector, de poesia, e dividem o sonho da medicina. Mas a razão mesmo de Retratos e Fatos ter se encontrado com elas é porque as duas são escritoras, autoras do segundo livro “O amor é uma utopia: dos sabores aos dissabores”, publicação que reúne poesias e textos sobre o amor, esse sentimento ainda tão indecifrável.
A ideia principal do livro, segundo as autoras, é desconstruir a visão que as pessoas têm do amor utópico, aquele sentimento maravilhoso, perfeito, os romances de Skakespeare. “A gente está mostrando a realidade. Que tem dor, que nem tudo são flores. Só quando você passa por cima de tudo isso é que, de fato, existe o amor. A ideia do livro é passear dos sabores aos dissabores, para que o leitor seja levado a refletir nessa desconstrução sobre o que ele entende que seja o amor”, explica Larissa, que assina a maior parte dos textos na coletânea.

Os textos são gostosos de ler. Uma poesia que não se preocupa com rimas, desprendida de qualquer formato pré-estabelecido. A preocupação é com a originalidade e naturalidade na transcrição das sensações, das experiências vividas, dos sabores e dissabores tão intrínsecos ao amor.
A maior parte das histórias contidas no livro é fundamentada em experiências próprias, mas elas também trouxeram enredos amorosos de outras pessoas, principalmente dissabores. “São vivências, visões de experiências que a gente tirou das dores de outras pessoas e trouxe para o livro. Todo mundo, querendo ou não, já viveu algo parecido com o que está aí”, lembra Laís.

E, realmente, todos já vivemos. Quem ainda não provou desse doce veneno, depois da morte essa é a maior certeza que temos. É tão inevitável que se transformou na maior inspiração de Larissa, principalmente a dor advinda do amor. “Se eu não escrever, eu não consigo lidar com o que eu sinto. Escrever para mim é aliviante. É uma terapia”.
Mas, apesar de tudo, elas acreditam no amor. Não o amor utópico, platônico, mas um amor pés no chão, mais maduro. “A maioria das frustrações que as pessoas têm do amor é porque elas idealizam demais. As pessoas não são perfeitas, então para que procurar a perfeição no amor? ”, questiona Larissa.

Aliada da irmã até nos pensamentos, Laís alerta, contudo, que não cabe a elas, e nem muito menos é a proposta do livro, rotular o que as pessoas pensam sobre o amor. “Não cabe à gente julgar o sentimento do outro. É algo que não se explica”.
Larissa escreve desde a adolescência. Sua primeira experiência não fugiu à regra: foi um diário. “Era uma forma de eu lidar com algumas questões internas”. Mas, na contramão da regra e do manual do diário de uma adolescente, ela compartilhava tudo, e as pessoas gostavam do que viam e liam. Em 2017, ela transformou o incentivo dos amigos em um perfil no Instagram, o @pensalary, mas nenhuma pretensão, naquele momento, para além disso. “O livro era uma coisa que era muito longe para mim. Impossível”.

Mas como tudo parece impossível somente até que seja feito, como disse Mandela, a pandemia mudou o curso da história das meninas. Nasceu o primeiro livro, “A vida é um café amargo: deliciosamente amargo”, de Larissa Telles e ilustrações de Laís Telles. A publicação trata sobre temas diversos e já vendeu 195 exemplares dos 200 impressos.
Em “O amor é uma utopia”, Laís também assina as ilustrações, incluindo a capa. “Não é que eu sou desenhista, eu simplesmente me esforcei para fazer desenhos legais para o que a Larissa estava precisando”. Ela é boa ilustradora e também muito modesta. Na adolescência, ela também tinha um diário, mas, ao contrário da irmã, o conteúdo era privado. Depois, começou a tomar gosto por poesias, contar histórias. “Quando a Lari começou a escrever, eu me incentivei também a escrever algumas coisas”.

As jovens-gêmeas-escritoras-euclidenses têm colecionado ótimos relatos de pessoas que já foram impactadas positivamente após a leitura dos livros. “Ontem mesmo eu recebi um feedback de um menino dizendo bem assim: ‘Lari, eu comecei meu primeiro dia de terapia hoje e os seus textos estão me ajudando muito. Muito obrigado por isso’. E eu fiquei: meu Deus, que honra. Isso para mim é realização enquanto escritora, não é ter o livro. É o que ele representa para as pessoas”.
Para o futuro, Larissa quer escrever um romance e já começou a rascunhar na cabeça as primeiras ideias. Ela lamenta o fato de não ver muito incentivo à leitura e escrita em Euclides da Cunha. “E é isso que eu acho triste, porque eu vejo muita gente talentosa, com potencial, mas não vai para a frente porque não tem incentivo das pessoas, principalmente na escola, que é a base primordial”, avalia. O livro “O amor é uma utopia: dos sabores aos dissabores” foi selecionado e premiado em Sergipe, onde Larissa e Laís estudam, pela Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), por meio da Lei Aldir Blanc.

”Para encerrar, nós perguntamos a elas qual era a sensação de ter nas mãos um livro próprio publicado. Para Larissa, “surreal. Tem horas que eu pego e fico ‘meu Deus, eu tenho um livro’”. Laís disse que “é um sonho materializado. Para mim não é nem tanto o livro em si, mas o que isso causa nas pessoas”.
Encerramos e fomos continuar o café. E contar histórias, claro.

“O importante é que só entende do amor se souberes amar”. Larissa Telles
Para adquirir os livros, clique aqui.