Maria Clara Aquino: Uma breve reflexão sobre “O século dos imbecis”

A colunista Maria Clara Aquino apresenta uma análise das provocações filosóficas e sociais do romance de Valter Hugo Mãe, que aborda a ignorância, os dilemas entre bondade e maldade, a ganância e o individualismo
"Pela equação da narrativa, a maldade define e destina o homem, já a bondade o define, mas não o destina". Imagem editada: Nuria Velasco

No mais recente romance de Valter Hugo Mãe, Agilulfo, o Marquês da Malandrinha, emburrecia a cada vez que precisava descer à vila, como se a sua lucidez estivesse encastelada nas alturas da montanha ou condicionada a seu palacete. “A Malandrinha era companhia. Pudessem todas as pessoas acompanhar-se de um lugar e, desse modo, afastar a solidão. Agilulfo estava com a Malandrinha. O que é uma casa senão um parente extraordinário” (p. 21).

Essa passagem nos provoca a refletir se a ignorância pode ser um lugar seguro, se a construção de uma intimidade não compartilhada pode ser uma estratégia salvacionista para se estar no mundo. Quantos de nós pode afirmar que possui uma casa com a mesma conotação do texto do autor? Na ficção, o personagem morre de burrice. Fizeram-no descer a uma cova funda até os limites de sua burrice. Omobon e Omobestia, movidos por sua imbecilidade, provocam a morte do protagonista, uma vez que sabiam de sua condição incomum e, ainda assim, quiseram testá-la.

“A Marquesa acreditava que sua salvação estava no ‘maldito aço fechado’ até ser, misteriosamente, engolida por ele”. Imagem: Nuria Velasco

Importa destacar que a escolha dos nomes desses dois personagens não é gratuita e releva um interessante jogo linguístico. Omobon: deriva de Uomo Buono (ou Homo Bonus), que significa ao pé da letra “Homem Bom”. Omobestia: traz a ideia oposta ao misturar Uomo (Homem) com Bestia (Besta/Animal), significando algo como “Homem Besta” ou homem irracional/brutal.

Embora, filosoficamente, tenhamos claro o maniqueísmo de “bem” (Omobon) e “mal” (Omobestia), o romancista subverte essa lógica. Quando levados a julgamento, a bondade irresponsável ou a omissão do assassino bom é, moralmente, mais condenável do que a maldade declarada do assassino mau. É flagrante o seguinte trecho: “À bondade exige-se responsabilidade. O que haveremos de fazer no dia em que os bondosos puderem ser torpes. Em que nem nos bondosos pudermos confiar” (p. 252). Nesse sentido, o assassino bom é quem recebe a sentença mais rígida: “[…] mil e mais mil e mais mil anos de cárcere, sem direito a refeição, passeio ou sol, sem leitura e sem amizade, sem abraço nem vaso de flor” (p. 252).

“Na ficção, o personagem morre de burrice”. Imagem: Livraria Paralelo 30

Com efeito, essa alegoria aprofunda ainda mais os pontos de interrogação: os moralmente bons não podem cometer falhas? No que consiste, exatamente, a humanidade? Pela equação da narrativa, a maldade define e destina o homem, já a bondade o define, mas não o destina.

Outra figura digna de nota é a Marquesa que, embora herdando o título de nobreza e a propriedade do falecido marido, não consegue usufruir de sua riqueza, tendo que viver do status legado por sua posição. É com a ajuda da Criada que tenta sobreviver. A demissão em massa dos funcionários da Malandrinha, a venda dos vestidos de luxo da Marquesa são os principais subterfúgios encontrados pelas duas mulheres para driblarem a situação de penúria na qual se encontravam. Ironicamente, havia um gigantesco cofre na propriedade que podia colocar um fim aquele desespero, no entanto, a Marquesa não conhecia a senha.

“Pela equação da narrativa, a maldade define e destina o homem, já a bondade o define, mas não o destina”. Imagem: Nuria Velasco

Temos aí mais uma sátira, dessa vez, ao que concerne à ganância e ao materialismo desprovido de empatia. A Marquesa acreditava que sua salvação estava no “maldito aço fechado” até ser, misteriosamente, engolida por ele. Com o sumiço da patroa, as portas e janelas da luxuosa Malandrinha abriram-se para o mundo. “[…] virara um condomínio onde convergia tanto povo na labuta e no sonho que não havia propriamente solidão nem abandono” (p. 336).

Enxergamos nisso e, talvez, em todo O século dos imbecis (2026), o confronto de duas forças polarizadas; uma que representa a busca infrutífera e pouco edificante ao espírito humano por ascensão individual e a outra que sinaliza para caminhos éticos, coletivos, os quais são capazes de criar e ressignificar a vida ao redor.

REFERÊNCIA:
MÃE, Valter Hugo. O século dos imbecis. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2026.


Maria Clara Aquino
nasceu com o sol em virgem, em 1992, na cidade de Euclides da Cunha, interior da Bahia. É graduada em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas (UNEB), especialista em Educação, Contemporaneidade e Novas Tecnologias (UNIVASF) e mestra em Estudos Literários (UEFS). É autora de Ao caramujo um jeito esquerdo (Patuá, 2021), Húmus (Patuá, 2023) e de Transpirar anzóis em vastos desertos (Urutau, 2024), seu primeiro texto em prosa, com o qual foi finalista do Prêmio Mix Literário 2025.

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