Outro dia, conversando com meu marido, que é comerciante, percebi uma contradição interessante.
Quando vou comprar alguma coisa, muitas vezes ele diz:
“Olhe na internet. Talvez esteja mais barato.”
E eu respondo:
“Você, justamente você, não deveria ser o primeiro a me incentivar a fazer isso.”
Não porque comprar pela internet seja errado. Eu também compro. Todos nós buscamos preço, praticidade e economia.
Mas existe uma pergunta que raramente fazemos: Quanto custa para uma cidade quando seus moradores deixam de comprar nela?
Atrás de cada porta aberta no comércio local existe alguém pagando aluguel, energia, impostos, funcionários, contador, estoque e transporte. Existem famílias, empregos e uma economia que depende desse dinheiro circulando.
Quando compramos aqui, o dinheiro não termina no caixa da loja. O comerciante paga o funcionário, que compra no supermercado; alguém abastece o carro, compra na farmácia, paga a escola ou contrata outro serviço.
O dinheiro circula.

Agora imagine se todos fizerem o contrário: o dono da loja de roupas compra eletrônicos pela internet; o de eletrônicos compra sapatos; o da sapataria compra utensílios…
Até que todos começam a perguntar: “Por que o comércio está tão fraco?”
Talvez parte da resposta esteja nas nossas próprias escolhas.
E os números mostram o tamanho dessa transformação: segundo o IBGE, em 2023, 38,5% da receita do varejo de informática, comunicação e artigos de uso doméstico já vinha das vendas pela internet.
Isso não significa ser contra a tecnologia ou pagar qualquer preço só porque a loja é local.
Significa ter consciência de consumo.
Se o preço for parecido, por que não comprar aqui? Será que atendimento, facilidade para trocar, assistência e o fortalecimento da economia da nossa cidade também não têm valor?
E o comerciante também precisa fazer sua parte: atender bem, divulgar, vender pelo WhatsApp, oferecer entrega, facilitar pagamentos e rever preços e margens.
Porque hoje uma pequena loja do sertão baiano concorre com uma plataforma que está dentro do celular do cliente.
A saída não é internet OU comércio local.
É comércio local + tecnologia + consciência de consumo.
Comprar é uma decisão individual. Mas milhares de decisões individuais transformam a economia de uma cidade.
Então, antes de clicar em “comprar agora”, fica a pergunta: eu já procurei isso no comércio da minha cidade?
Porque fortalecer o comércio local é fazer o dinheiro circular onde a nossa própria vida acontece.
JAQUELINE CARVALHO possui MBA em ESG e Negócios Sustentáveis pela ESALQ/USP (em andamento), com formação em Contabilidade e Serviço Social e especializações em Comportamento Humano, Neurociência, Comunicação e Desenvolvimento Humano, além de especialização em Contabilidade Pública e Lei de Responsabilidade Fiscal (em andamento). Possui quase 30 anos de experiência em Assistência Social, com atuação em gestão pública, elaboração e desenvolvimento de projetos socioambientais. Foi secretária municipal de Assistência Social de Euclides da Cunha (BA) e representante dos municípios baianos de médio porte na Comissão Intergestores Bipartite (CIB), por dois mandatos. Atua como consultora em gestão pública e empreendedora, com experiência em projetos e soluções para o setor público e a área socioambiental, sendo idealizadora da Quero Mudar – Projetos Socioambientais. Sua trajetória inclui reconhecimentos estaduais e nacionais por boas práticas de gestão e projetos sociais desenvolvidos em municípios da Bahia.
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