Chega de bombons, copos customizados, bolsas, agendas e canetas no Dia dos(as) Professores(as)! Não fossem tantas notícias a nos deixar taciturnos, teríamos uma data para celebração, para confabular diante de uma efeméride. Também chega de coaches para falar sobre a importância de nossa saúde mental. Até parece que estamos assim, doentes, porque nos faltou resiliência. Chega de tantas cenas que estamos acostumados a ver, mas não deveríamos. É claro que, se pudesse, passaria o mês de outubro ou o ano inteiro fazendo menções alvissareiras àqueles(as) que constroem a nação com suas técnicas e afetos profissionais. Todavia, é gritante o número de afastamentos laborativos em virtudes de uma série de transtornos que vêm corroendo a alma dos(as) professores(as). O que deveria ser sinônimo de vitalidade cotidiana está se tornando tormento, burnout ou situações muito piores.
Fico pensando, dadas as circunstâncias que vivencio, as opressões de um sistema inflexível e os contextos com os quais me deparo, se conseguirei me aposentar mantendo a saúde mental diante de tantos desafios e “testes de esforço”. Os coaches dirão que devemos nos adaptar e sermos camaleônicos diante de salas superlotadas, ausência de recursos e pedagogias hegemônicas que só servem aos ditames do capital. Observo, também, tantos colegas que já não estão mais compartilhando experiências pedagógicas diárias em virtude das condições em que se encontram e ainda não conseguiram se recuperar.

Parece clichê falar de salários aviltantes, carreiras sem estímulos e, o pior, da mudança de valores que afeta o campo educacional. Vive-se em uma sociedade que tenta, a todo custo, dissociar projetos educacionais de um ideário mais amplo de sociedade, sendo que as escolas costumam fazer de tudo um pouco, menos a sua missão nevrálgica. Nesse sentido, estudantes passam mais de 15 anos dentro de uma instituição e dela ainda saem analfabetos funcionais. Quem está de fora costuma, erroneamente, colocar a “culpa” nos(as) professores(as), responsáveis, na visão de muitos, por tudo que está aí diante de nossos olhos. Até parece que nos locupletamos com o fracasso educacional.
No dia a dia, escuto diversos relatos de que, não tão distante, professores(as), ao menos, tinham “vez”, eram “autoridades” e os questionamentos a eles(as) direcionados costumavam ser atravessados de respeito e cautela. Hoje, já ouvi de uma colega que só o fato de sair viva da escola já era um grande avanço. Ainda perguntei, ironicamente, se era praxe ser chamada de “tia”, situação que, ela pontuou, pouco importava se não houvesse xingamentos e ofensas. Estava cansada e, sequer, tinha condições para estudar mais e mudar de profissão.
Pesquisas indicam ausência de professores(as) em um futuro próximo. Parece que isso não causou o impacto que deveria. Por vezes, penso, loucamente, se necessitaríamos de outra pandemia para mostrar ao mundo o poder de um(a) professor(a). Não seriam os dados estatísticos assustadores um motivo para levar à ressignificação da carreira docente? As retóricas, infelizmente, não nos salvarão das trevas. É fato que não se faz valorização com outdoor. Não se faz valorização docente com preceitos neoliberais. Enfim, não existe qualidade na educação se os(as) professores(as) estão doentes ou em situação de risco.
Enquanto isso, os contextos pioram, as opressões se avolumam e as prefeituras estão, em ações automáticas e acríticas, tentando sobreviver para majorar as notas que o sistema impõe. É Saeb para lá e para cá, com todos os traços performáticos que esse jogo louco e coletivo proporciona. Como muitas técnicas falharam e nada do ethos educacional se modificou, agora tentam convencer estudantes com dinheiro, prêmios e bonificações. Destarte, os fins andam justificando os meios, em uma mímese aos contextos políticos maquiavélicos.

Professores(as) são, ou deveriam ser, promotores(as) da reflexão e da cultura intelectual. Não sei onde e quando iremos chegar com toda essa celeuma que, a nível nacional, se instaurou. Por enquanto, retomo a dica do escritor Jefferson Tenório de que os(as) profissionais da educação precisam cuidar de si, de forma holística. Infelizmente, há os que acompanham o sistema e já não conseguem pensar mais em nada. O parco salário ao final do mês é o que importa, embora não seja, na maioria das ocasiões, digno. Por isso, não almejam mais estresse e confusão com lutas coletivas. Já se renderam e não sabem se haverá um fim. Mesmo no meio do caminho, desconhecem onde estão.
A filosofia é, em si, importante. É lindo ouvir que brilharemos como estrelas no céu, mas a realidade não é piegas. Já sabemos o que precisa ser feito para sua alteração. Nada mudará, no campo educacional, sem os(as) professores(as). Poderia terminar o texto aqui, pois já se tem em mente quem serão os agentes das mudanças. Não será o ChatGPT, tampouco outras inteligências generativas e dispositivos que, pelo andar dos fatos, surgirão. Urge abandonar o cinismo político e reconhecer que, enquanto as estruturas permanecerem as mesmas, nadaremos em demasia, mesmo que esgotados, e morremos, enfim, na praia, como destaca o adágio popular. Por isso, é necessário pensar, ética e criticamente, se o Dia do(a) Professor(a) tem sido mais uma data abraçada pelo sistema para espalhar suas ideologias em torno das ações daqueles(as) que, no fundo, deseja destruir. Resta-nos, portanto, agir esperançosamente, e não é qualquer atitude que nos ajudará. Caminhemos, portanto, de mãos dadas.
