Osvaldo Júnior: Educação instagramável e tiktokizada: entre o espetáculo e o esvaziamento formativo

Precisamos de uma outra escola, pois aquela rendida aos ditames da mídia perversa não nos ajuda. Aquela que retira estudantes e professores para tiktokizar e instagramar o cotidiano, mais contribui para alienar do que para emancipar.
"Por vezes, tenho a sensação de que estou vivenciando os feixes de uma realidade paralela, fora de órbita e longe do segundo sol que a realinha". Foto: Gerada por IA

Parece que estamos perdidos, sem saber o que dizer…

Capital Inicial

Por vezes, tenho a sensação de que estou vivenciando os feixes de uma realidade paralela, fora de órbita e longe do segundo sol que a realinha, conforme anúncio poético disponível em uma das músicas de Cássia Eller. Não raro, lembro-me de que cheguei à escola na qual trabalho e, em seus corredores, o “Bora, Bill” reinava. Como de praxe, desconhecia aquele dispositivo de linguagem. Assim, franzi a testa ao ouvir um estudante repetir, amiúde, um termo que já era popular nos circuitos cotidianos. Perguntei à turma a origem da expressão e, rapidamente, muitos se disponibilizaram a falar de algo que, ao fim e ao cabo, em nada nos acrescentava.

Nunca tive TikTok, pois o tempo que me sobra, extraídos os períodos de rotinas profissionais, é dedicado à leitura, à escrita, à escuta de músicas e a outras atividades domésticas complementares. Por isso, visito com mais frequência o Instagram, no qual observo muitas “novidades” sonoro-visuais que se espalham sem a devida reflexão crítica e, na mesma velocidade que chegam, vão embora. De repente, não mais que de repente, notei que uma horda considerável de pessoas resolveu gravar um vídeo falando de uma chaleira, uma caneca e outros tantos elementos de uma música que desconheço.

“Somos, em virtude do tempo dispensado nas telas, seres mais virtuais do que se possa imaginar”. Foto: Gerada por IA

Conforme já relatei em outros momentos e textos, não vejo problema quando os funcionários de uma farmácia, de uma loja de brinquedos ou de qualquer outra empresa mimetizam essas “novidades” em busca do alcance de um nicho mercadológico, pois está mais do que provada a nossa exagerada virtualidade. Somos, em virtude do tempo dispensado nas telas, seres mais virtuais do que se possa imaginar. Estamos, por vezes, empobrecidos linguística e pedagogicamente, a repetir os ditames e vexames que circulam nos mais diversos espaços da cibercultura. O problema, para mim, surge quando uma instituição, que reconstrói constantemente seu Projeto Político-Pedagógico, passa, sem questionamentos, a incorporar modismos que frequentemente esvaziam as práticas pedagógicas e, não raro, são atravessados por preconceitos que nós mesmos, no dia a dia, sabemos que não se tratam de “meras brincadeiras inofensivas”, a tangenciar o gênero, a religião, a raça e outros tantos marcadores sociais de diferença.

As salas de aulas, ambientes criados à dedicação dos processos de ensino-aprendizagem, são vistas por muitos como espaços chatos e enfadonhos, cuja ludicidade e engajamento virtuais poderiam trazer possibilidades de mudança e angariar crescimento de turmas, afetando a função social da escola que incita alunos e professores a buscarem likes e visualizações no vasto mundo da sociedade do espetáculo, permeada pela celeridade que pouco contribui para alimentar o espírito intelectual.

“Escola não é shopping, tampouco agência de marketing a repetir o lugar comum”. Foto: Gerada por IA

Não sei até onde iremos chegar. Recentemente, debates sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente no âmbito virtual se disseminaram, revelando-nos o cuidado que devemos ter com as imagens e sons que produzimos, bem como com suas representações semióticas e reverberações, a ensejar, inclusive, processos judiciais por violações de princípios normativos.

Não é nada ético retirar tempo pedagógico e direcioná-lo à construção de takes que circularão nas malhas da internet a convencer ouvintes e espectadores de que, ali, tem-se diversão, mesmo que, para isso, seja necessário passar por cima de valores cuja construção social demandou tempo, luta e esforço.

Não digo, com isso, que os vídeos devam ser banidos das instituições de ensino. A questão não é essa, dada a sua fecunda possibilidade pedagógica. Por vezes, em circuitos privados, ouço de colegas de profissão que foram obrigados a entrar em uma vibe instagramável para impedir uma demissão ou um descontentamento por parte daqueles que vivem dos comentários proferidos nas redes sociais, mesmo sabendo que foram forjados e não refletem, verdadeiramente, o que ali é construído e compartilhado.

As instituições escolares, ao se tornarem reféns do Instagram e do TikTok, ambientes profícuos para se conquistar matrículas e novos vínculos financeiros, demonstram que a crise de valores sem precedentes com a qual convivemos é muito mais complexa e multifacetada do que se possa imaginar. Digo isso porque, no campo educacional, lidamos com conhecimentos e seus processos de (re)construção, dos quais a ética e seus desdobramentos, ao serem alijados, geram o que se vê a cada dia: vale mais quem mais é visto, compartilhado, comentado, alimentando-se a indústria que torna o superficial uma metonímia da excelência, quando, na verdade, tem-se uma contribuição a um mundo que pouco contribui para aperfeiçoar o humanismo que é provocado pelas dimensões sinestésico-cognitivo-relacionais que estabelecemos com os saberes eleitos como formativos.

“Perguntei à turma a origem da expressão e, rapidamente, muitos se disponibilizaram a falar de algo que, ao fim e ao cabo, em nada nos acrescentava”. Foto: Gerada por IA

Dessa vez, observo que várias “coisas” estão fora da ordem e muitos professores e gestores, ao alimentarem posturas passivas e acríticas, retroalimentam um sistema cujas cifras financeiras a nenhum deles chegará. Falta-nos ética em demasia. Falta-nos Pedagogia, a ciência que deveria balizar os fazeres cotidianos de uma instituição secular que atravessa a vida de crianças, adolescentes, adultos e idosos.

Precisamos, destarte, de uma outra escola, pois aquela rendida aos ditames da mídia perversa não nos ajuda. Aquela que retira estudantes e professores para tiktokizar e instagramar o cotidiano, mais contribui para alienar do que para emancipar. É possível inserir ludicidade e engajamento de outras formas, sem comprometer a formação holística dos sujeitos curriculantes. Escola não é shopping, tampouco agência de marketing a repetir o lugar comum. Escola é ambiente de aprendizagens em prol de um outro projeto de sociedade. Lá, não podemos, portanto, estar perdidos, sem saber o que dizer e esperando que os algoritmos nos salvem.

OSVALDO ALVES DE JESUS JÚNIOR é amante das letras e das narrativas. É formado em Letras Vernáculas e Pedagogia, tendo pós-graduação em Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa, Metodologia do Ensino Superior, Psicopedagogia Clínico-Institucional, e Gênero e Sexualidade na Educação. Em 2018, publicou seu primeiro livro de crônicas, Fragmentos sinestésicos. Em 2019, lançou An…danças: facetas cotidianas, obra que contém prefácio da filósofa Marcia Tiburi. Em 2021, publicou BNCC: que axé ela tem?, e em 2022 Eu não posso ler seu livro. Participa, constantemente, de antologias literárias.

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