Já parou para imaginar como seria o mundo sem livros? Um mundo em que eles fossem, terminantemente, proibidos? Esse é o principal leitmotiv de Fahrenheit 451, clássica distopia de Ray Bradbury. Mas, o que parece ficção científica não está muito longe da realidade. A desconfiança é de que estão em extinção não os livros e sim os leitores. O que pode explicar, em parte, o descompasso entre a ascensão do mercado editorial na atualidade, afinal, nunca se publicou tantos autores, e a recepção. Em outras palavras, há livros demais circulando e leitores de menos.
Então, por que, no geral, as pessoas não leem? Poderíamos encontrar alguns bons motivos: (i) a escola não investe em formação leitora; (ii) no Brasil o valor do livro é considerado caro; (III) o brasileiro médio e trabalhador não tem tempo para ler; (iv) as mídias digitais atraem mais; (v) ainda são altos os índices de analfabetismo no país; (vi) entre os gêneros de primeira necessidade, o acesso à leitura não é tido como prioridade; (vii) a ausência de exemplo – se não há pessoas próximas lendo (família, professores, colegas de trabalho, vizinhos, amigos), dificilmente, um(a) leitor(a) será formado(a).
Além disso, enquanto o acesso ao livro for sinônimo de status, pois, quem lê, é socialmente, referenciado como pessoa culta ou de maior poder aquisitivo e quem não se enquadra vive à margem, muitos indivíduos continuarão achando que certas prateleiras são inalcançáveis.

A verdade é que a escola pode, sim, traumatizar ao levar a efeito a operação da leitura: ler por obrigação durante as aulas, ler para fazer provas e exames, ler versões mutiladas/adaptadas de textos literários, mas é, também, verdade que as brechas e os atalhos são possíveis: contar com o PNLD Literário que distribui, gratuitamente, livros de literatura para as escolas públicas da educação básica, por desdobramento, frequentar a biblioteca ou espaço de leitura para acessar bibliodiversidade, pegar emprestado, baixar o PDF, trocar o fardo ou a caixa de cerveja que, dependendo da marca, embalagem e quantidade, pode custar entre R$ 35,00 e R$ 110,00, por um livro.
Levando em consideração que o valor médio de um livro custa, de acordo com a pesquisa mais recente do Painel do Varejo de Livros no Brasil, coordenado pela Nielsen BookData em parceria com o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), em torno de R$ 50,42 a 72,36 a depender do gênero, conclui-se que o livro custa tanto quanto a bebida favorita dos brasileiros.
Ainda conforme essas entidades, o setor chegou a vender para o mercado, em 2025, 185 milhões de exemplares (incluindo didáticos, religiosos, obras gerais e CTP – Científicos, Técnicos e Profissionais) com faturamento de R$ 4,5 bilhões. No entanto, confrontando esses dados, a pergunta que reina é: onde estão os leitores e o que eles leem? A pesquisa aponta que o gênero mais vendido foi o Religioso (50.706 milhares), em segundo lugar, Não Ficção Adulto (45.270 milhares), ficando a Ficção Adulto (33.884 milhares) atrás do Infantil e Juvenil (36.669 milhares) e apenas a frente do Didático que ocupou a última posição no ranking (18.576 milhares).
É possível depreender, com isso, que a literatura de ficção assume um lugar menor na preferência do leitor brasileiro, revelando, por extensão de sentido, um traço do seu comportamento. Partindo daí, o panorama revelaria que a crise (principal?) pode estar no tratamento conferido ao texto literário, o de quase indiferença por parte significativa da população (isso para não falar dos livros de poesia).
Com efeito, em concordância com a reflexão de Eliana Yunes, em Pensar a leitura: complexidade (2002), o desenvolvimento da competência leitora depende do estabelecimento de uma relação pessoal com a leitura. Logo, se esta relação é problemática ou traumática, decorrem daí muitos problemas e até impedimentos.
Nesse sentido, se o ato de narrar está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento do ser humano, desde a aquisição da língua e do estabelecimento das coordenadas de tempo e espaço, é possível afirmar que, antes da escolarização, temos a formação de um leitor do mundo que é baseada na narratividade da vida. Contar sobre si, sobre os outros, sobre acontecimentos, sobre o passado, sempre em contato com a imaginação e a representação. Assim, o utilitarismo social da leitura se forma depois com o contato escolar.

A princípio, o ato de ler movimenta/desloca a subjetividade do sujeito que é capaz de ser atravessado pelo pensamento de alguém e de mudar, pela abertura dialógica, alguma coisa em si mesmo.
Dessa maneira, ler ultrapassaria o sentido mais tradicional do termo, indo da decifração mecânica do código escrito para o encontro interior consigo e com o outro. É quase o mesmo que percorrer com a personagem Dorothy, em O Mágico de Oz, a estradinha de tijolos amarelos que levam à Cidade das Esmeraldas. O principal componente para/da formação leitora já se encontra no próprio leitor: sua identidade, anseios e subjetividade. O Espantalho (que já era inteligente) recebeu um diploma, o Homem de Lata (que já era sentimental) um relógio em formato de coração, o Leão (que já era corajoso) uma medalha de valentia. Quanto ao leitor? Será mesmo necessário proibir e queimar os livros para que se descubra seu valor?
REFERÊNCIAS:
BAUM, L. Frank. O Mágico de Oz. Ilustrações de William Wallace Denslow. São Paulo: Darkside Books, 2020.
BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2012.
PESQUISA Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, ano base 2025. Disponível em: https://snel.org.br/pesquisas/. Acesso em: 21 ago. 2026.
YUNES, Eliana. Pensar a leitura: complexidade. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2002.
MARIA CLARA AQUINO nasceu com o sol em virgem, em 1992, na cidade de Euclides da Cunha, interior da Bahia. É graduada em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas (UNEB), especialista em Educação, Contemporaneidade e Novas Tecnologias (UNIVASF) e mestra em Estudos Literários (UEFS). É autora de Ao caramujo um jeito esquerdo (Patuá, 2021), Húmus (Patuá, 2023) e de Transpirar anzóis em vastos desertos (Urutau, 2024), seu primeiro texto em prosa, com o qual foi finalista do Prêmio Mix Literário 2025.
