Josevaldo Campos: E agora, quem poderá nos defender?

Na minha cabeça, hoje, a imagem daquela mulher que representa a Justiça, com os elementos nas mãos que simbolizam a imparcialidade, o equilíbrio e a força da lei, foi perfeitamente substituída pela imagem do banqueiro Daniel Vorcaro.
"Daniel Vorcaro eliminou qualquer resquício de dúvida que algum de nós ainda pudesse alimentar de que o Brasil teria solução". Imagem: Gerada por IA

Pelo menos em uma coisa precisamos todos concordar, independentemente de você ser de esquerda, direita, centro, branco, preto… Daniel Vorcaro, esse famoso do Banco Master, prestou um serviço importante à nação: eliminou qualquer resquício de dúvida que algum de nós ainda pudesse alimentar de que o Brasil teria solução.

Não tem. É impossível!

Que Brasília é o centro da podridão do país, isso todo mundo já sabe. Mas o episódio envolvendo o Banco Master parece ter sido o golpe final no estômago daqueles que, assim como eu, ainda alimentavam um fio de esperança em um político dali, um juiz daqui, um ministro de lá…

Depois que levantaram um pouco mais o tapete da entrada do Banco Master e começaram a aparecer também as pisadas de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) na sujeira, para mim, foi o fim.

Não que eu fosse tão ingênuo a ponto de acreditar que, nesta Pátria Amada, Brasil, alguma instituição pudesse estar cem por cento limpa, um cesto completo sem nenhuma maçã podre. Não. Mas eu não estaria sendo honesto se dissesse que já previa tamanha esculhambação.

Tudo isso é para dizer que, até poucos dias atrás, uma parte de mim ainda confiava e acreditava no sistema de Justiça, de modo geral. Ainda imaginava que, em algum momento, teria a audácia de acioná-lo para “me proteger”, confiando no que prevê e garante a Constituição Federal.

“O episódio envolvendo o Banco Master parece ter sido o golpe final no estômago daqueles que, assim como eu, ainda alimentavam um fio de esperança em um político dali, um juiz daqui, um ministro de lá…”. Imagem: Gerada por IA

Mas, depois que a bomba explodiu com tudo dentro da mais alta instância da Justiça brasileira, sua Excelência, o STF, sinceramente, fica difícil confiar em alguém. Difícil acreditar em uma Justiça limpa, imparcial, comprometida e, acima de tudo, justa.

Diante dos fatos recentes que estamos testemunhando, como ainda acreditar que, lá no fundo, bem lá no fundo do cesto, alguma maçã ainda poderá ser aproveitada?

Ficou impossível não generalizar.

Daniel Vorcaro escancarou, aos meus olhos, um sistema — político, judiciário e muitos outros, com certeza — que serve e responde ao dinheiro, completamente corrompido e manchado de tal forma que dificilmente conseguirá recuperar a credibilidade que essas instituições um dia tiveram.

Ou será que nunca tiveram?

A impressão que se tem é de que a lista de pagamentos generosos dele é infinita e abocanhou tudo e todos que encontrou pela frente.

Na minha cabeça, hoje, a imagem daquela mulher que representa a Justiça, com os elementos nas mãos que simbolizam a imparcialidade, o equilíbrio e a força da lei, foi perfeitamente substituída pela imagem do banqueiro.

Afinal, digam-me: seria exagero dizer que é Vorcaro quem distribui as cartas e dita as regras no país hoje?

“Afinal, digam-me: seria exagero dizer que é Vorcaro quem distribui as cartas e dita as regras no país hoje?”. Imagem: Gerada por IA

Desculpem-me os otimistas, mas, para mim, o Brasil é hoje o país da desesperança, do salve-se quem puder.

Mas também, convenhamos: o que poderíamos esperar do futuro de uma nação que, lá em 7 de setembro de 1822, disse ter se tornado independente de Portugal tendo à frente da “batalha” um príncipe português legítimo?

Irônico e bem louco, não?

Mas, verdade seja dita: em se tratando de Brasil, engana-se quem quer.

Lembra da letra da música de Renato Russo, “Que País É Este”?

Nela, lá na época da Ditadura Militar — que, aliás, nunca acabou; basta olhar para os lados e ver os fracos sendo oprimidos pelos poderosos que controlam o sistema político-judicial-militar da atualidade —, pois bem, voltemos à letra da música, que, em determinado momento, diz:

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação

Perceberam a semelhança? Nada mudou!

Vivemos apenas uma versão atualizada de um Brasil que sempre foi desse jeito e sempre será. A gente apenas vai seguir repetindo a pergunta “que país é esse” e se deixando enganar aqui ou acolá, numa mera tentativa — ou tática — de sobrevivência e de adaptação ao sistema, que, de forma sutil ou bruta, vai te levando aos pouquinhos ou te sugando de uma vez para dentro dele.

E agora, quem poderá nos defender?

Pra ser sincero, talvez nem o Chapolin Colorado.

Josevaldo Campos é jornalista, escritor e editor-chefe do site Retratos e Fatos. A opinião expressa neste texto não representa, necessariamente, a opinião do site ou de seus demais parceiros.

 

 

 

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