Maria Clara Aquino: Fundar na memória uma cidade inteira

Apenas alguns metros dali, do hall de uma casa não mais existente, na Duque de Caxias, pertinho do beco do Nicanor (peixeiro), eu vislumbrava as barracas de doce e arquitetava maneiras para comprar um pirulito zorro (principal composição: caramelo, coco e uma infância feliz).
Avenida Rui Barbosa em tempos passados. Foto: Site IBGE

 ​”Os mapas mostram-nos onde estão as ruas, mas só a memória nos diz o que elas realmente significam.”

— Paul Auster, A invenção da solidão

 

Este poderia, mas não é, um texto sobre a origem do nome de determinados lugares, antes, trata-se da cartografia íntima de uma pessoa, no caso eu, em relação ao território que ocupa.

As ruas antigas de Euclides da Cunha revelam mais do que a passagem do tempo, ainda conservam os pórticos de certas casas, o formato de cogumelo de outras. Andar, hoje, pelas ruas da cidade com seu efervescente comércio e topônimos urbanos atribuídos, em sua maioria, a políticos e figuras ilustres de sua história, com certeza, não é a mesma coisa que percorrer os espaços que guardam nossa mais ancestral memória.

Desde as tampilas de cerveja e de refrigerante incrustadas nos paralelepípedos que registravam o intenso vai e vem dos transeuntes, passando pelo olhar prazenteiro de quem vivia nos passeios do início da década de 90, ao fliperama do Baixinho na praça principal que vendia aventuras do Homem-Aranha e das Tartarugas Ninja a 50 centavos, meia hora. Em tudo, o gesto de criação em que funciona a engenharia do afeto pelo lugar e pelas coisas do lugar.

Casarão na Rua do Rico. Foto: Arquivo Internet

A criatividade dos nomes populares das ruas perdeu espaço para a tendência de se pessoalizar os logradouros públicos; no entanto, a geografia da nossa cidade quase não se modificou, o que mudou ou ganhou contornos complexos foi a relação do homem com o lugar, o que Milton Santos denominaria de “Usos do Território”.

***

Nos bancos giratórios de tampo de madeira escura do Bar Miranda com seu inconfundível cheiro de mijo e álcool, aprendi os primeiros exercícios de se estar, mais ou menos em paz, na multidão. Um exercício importante como eu comprovaria mais tarde. Apenas alguns metros dali, do hall de uma casa não mais existente, na Duque de Caxias, pertinho do beco do Nicanor (peixeiro), eu vislumbrava as barracas de doce e arquitetava maneiras para comprar um pirulito zorro (principal composição: caramelo, coco e uma infância feliz).

“Nos bancos giratórios de tampo de madeira escura do Bar Miranda com seu inconfundível cheiro de mijo e álcool, aprendi os primeiros exercícios de se estar, mais ou menos em paz, na multidão”. Foto: Mudeu do Cumbe

Uma das minhas tias-avós morou na Rua da Bananeira que dá acesso ao cemitério; os cortejos fúnebres ainda desgastam o calçamento dessa rua silenciosa. Conheci muito pouco da minha tia-avó, as primeiras noções aprendidas nos álbuns de fotografia da família. Da casa que, há muitas décadas, já não lhe pertencia só restam escombros e a atmosfera de abandono que a transformou em um estratégico depósito de dejetos humanos.

Lembro que, ainda muito pequena, me mandavam ir no mercado do Josafá comprar o que ia faltando na cozinha, essa missão incluía passar pelo movimentado beco da Maria Bacalhau e do marido Zezé Broco. Contando com minha certeza de criança e com as recomendações das pessoas adultas, eu não acreditava nos riscos daquele deslocamento até o dia em que fui empurrada, de surpresa e pelas costas, pela Maria Bacalhau, quase queda, quase pássaro despencado do ninho. Dali em diante, seria meu maior trauma de infância.

Praça Duque de Caxias, na década de 90. Foto: Museu do Cumbe

Além dela, eu tinha medo e evitava a quilômetros os meninos da Rua do Curral, fiéis frequentadores dos carurus de Cosme e Damião, donos da rua e de todas as brincadeiras. No futuro, leria Capitães da Areia, de Jorge Amado, comparando-os.

Na Rua do Rico, a mais arborizada, ficavam as casas mais bonitas, onde os meus dedos se acostumaram a fazer música percorrendo as grades de ferro como um instrumento de corda.

Na Rua da Usina eu ia para cortar o cabelo – curto como o de minha avó, ou para comprar flores. Continua muito estreita e lúgubre. Quando chove e as gotículas de água dispersam-se no ar, embaixo das luzes dos postes, dá para sentir que, em algum lugar do mundo, uma viúva ou uma mãe ecoa uma espécie de choro universal. No entanto, nunca descobri, verdadeiramente, os sentimentos dessa rua.

Na Rua da Bomba ficava o Fanta e o Legalope, ponto de parada para um pastel sem muitas exigências. À direita dessa rua, ficava a bodega de dona Bebé do jogo do bicho, uma matrona gentil que escolheu uma poltrona verde para exercer seu governo, anotava a sorte dos clientes e me entregava, logo na sequência, a maior fatia de pudim de leite.

“Sem nenhum esforço, sou capaz de beber das visões de dentro do crânio humano (será mesmo humano?) que descansa sobre o freezer horizontal do Bar Falange Rock, na avenida principal”. Foto: Mudeu do Cumbe

Ao dobrar uma esquina é possível se deparar tanto com um fantasma do passado, como com um rosto conhecido, graças ao tempo que não é linear, dá saltos e cambalhotas sobre o duro solo de todas as nossas certezas. Sem nenhum esforço, sou capaz de beber das visões de dentro do crânio humano (será mesmo humano?) que descansa sobre o freezer horizontal do Bar Falange Rock, na avenida principal. As pessoas diziam que era da mãe do Elias Maluco, proprietário e gerente do espaço, ele nunca confirmou, mas, também, nunca negou.

Nessas mesmas ruas, nesses mesmos personagens respira uma cidade inteira, conservada na memória.

 

Maria Clara Aquino nasceu com o sol em virgem, em 1992, na cidade de Euclides da Cunha, interior da Bahia. É graduada em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas (UNEB), especialista em Educação, Contemporaneidade e Novas Tecnologias (UNIVASF) e mestra em Estudos Literários (UEFS). É autora de Ao caramujo um jeito esquerdo (Patuá, 2021), Húmus (Patuá, 2023) e de Transpirar anzóis em vastos desertos (Urutau, 2024), seu primeiro texto em prosa, com o qual foi finalista do Prêmio Mix Literário 2025.

Gostou desse conteúdo? Então, segue nossa página no Instagram para acompanhar outras publicações e nos apoiar: @retratosefatosoficial

Compartilhe