Nativus do Cumbe, patrimônio cultural imaterial do Brasil?

O Nativus se agigantou e arrisco dizer que já passou da hora de ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial nacional, ou estou pedindo muito?
Afirmo, sem nenhum receio de erro ou exagero, que o Nativus é hoje o maior símbolo de resistência do São João raiz no Sertão baiano, quiçá no Nordeste. Foto: Josevaldo Campos/RF

É, não resta dúvida: o Nativus do Cumbe é uma experiência especial, diferenciada, à parte, na programação junina de Euclides da Cunha e da região. Sua representatividade e seu significado já não podem ser traduzidos em palavras, em um momento em que muito do que se vê nas festas de São João é mais do mesmo. E esse “mesmo” não tem nada a ver com forró raiz, muito menos com tradição.

“O Nativus do Cumbe já se consolida como um patrimônio cultural da cidade. Está mais do que na hora de receber o verdadeiro reconhecimento institucional”, defende o cantor euclidense Jarbas Nogueira. Foto: Josevaldo Campos/RF

A experiência que o maior pé de serra andante do mundo — isso mesmo, do mundo, não mais apenas do Sertão — proporciona aos foliões é indescritível. E não digo isso por uma questão de estética textual, mas porque a imersão sensorial na cultura junina raiz que ele promove é imensurável e, por algumas horas, nos permite relembrar o quanto o São João é bão!

Nativus do Cumbe é uma experiência especial, diferenciada, à parte, na programação junina de Euclides da Cunha e da região. Foto: Josevaldo Campos/RF

No meio da multidão, os corpos se movimentavam ao som do bom e velho pé de serra. Para quem aprecia, o saboroso licor era mais um ingrediente na receita de sucesso do Nativus, que já dura 22 anos. “Deus me livre de não estar em Euclides da Cunha no ano que vem”, gritava um participante, traduzindo o sentimento de quem vivenciava a grandiosidade do momento.

“Deus me livre de não estar em Euclides da Cunha no ano que vem”, gritava participante, eufórico com a grandiosidade do momento. Foto: Josevaldo Campos/RF

O Nativus se agigantou e arrisco dizer que já passou da hora de ser reconhecido como patrimônio cultural imaterial nacional, ou estou pedindo muito? Um evento que, de forma única, consegue reunir famílias, amigos, casais, idosos e crianças. Impossível não se encantar. E, para aqueles que desfilam pela primeira vez, a saudade vem antes mesmo de a festa acabar. “Amamos vivenciar uma manifestação cultural nordestina tão incrível e enriquecedora! Que alegria termos a oportunidade de apresentar à nossa filha o autêntico São João do Nordeste”, afirma Fernanda Lessa, servidora pública federal, natural de Salvador, mas que já mora e ama Euclides da Cunha.

“Que alegria termos a oportunidade de apresentar à nossa filha o autêntico São João do Nordeste”, afirma Fernanda Lessa, servidora pública federal, de Salvador.

Até para aqueles que já marcam presença há várias edições, o Nativus sempre surpreende. “Em um tempo em que quase tudo virou produção automática, sustentar isso de pé deixou de ser tradição e virou postura”, afirma o publicitário e empresário Pedro Paixão.

“O Nativus mantém de pé aquilo que o mundo lá fora já tinha dado por morto”, defende Pedro Paixão. Na foto, ele aparece ao lado da esposa, curtindo mais uma edição do evento. Foto: Arquivo pessoal.

Figura marcante e indissociável da festa, o cantor euclidense Jarbas Nogueira celebra mais um ano animando o público e defende um maior reconhecimento para o evento. “Mais uma vez, a tradição mostrou todo o seu poder pelas ruas de Euclides da Cunha. O Nativus do Cumbe já se consolida como um patrimônio cultural da cidade. Está mais do que na hora de receber o verdadeiro reconhecimento institucional. O coração aqui transborda de alegria por toda essa energia tão especial. Viva o Nativus do Cumbe!”, celebra.

“A representatividade e o significado já não podem ser traduzidos em palavras”, afirma o jornalista Josevaldo Campos sobre o pé de serra andante. Ele, na foto, à direita, com familiares. Foto: Thyago Thelysson

Afirmo, sem nenhum receio de erro ou exagero, que o Nativus é hoje o maior símbolo de resistência do São João raiz no Sertão baiano, quiçá no Nordeste. “Nessa terra, resistir nunca foi figura de linguagem. É herança. O Nativus do Cumbe não está inventando nada. Está fazendo o que o lugar sempre soube fazer: manter de pé aquilo que o mundo lá fora já tinha dado por morto”, acrescenta Paixão.

A experiência que o maior pé de serra andante do mundo proporciona aos foliões é indescritível. Foto: Josevaldo Campos/RF

Aliás, resistir é uma palavra muito apropriada. Porque, não é que no meio do caminho tinha um paredão? Literalmente! Mas o bloco, sem perder o ritmo, contornou a situação e seguiu em frente, como a musicar uma mensagem para quem quisesse ouvir: o Nativus vive, resiste e segue crescendo. Como diria Drummond: “José, para onde?”. Só o tempo dirá.

Um evento que, de forma única, consegue reunir famílias, amigos, casais, idosos e crianças. Foto: Thyago Thelysson

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