Kim Fontes: Troque a roupa da sua alma: viaje!

Viajar nos dá a sensação de expansão mental, contato com novas comidas, sons, lugares, pessoas, cenários, estimula o nosso cérebro, isso deixa a nossa mente mais aberta e criativa, como se tivéssemos “arestas novas” de percepção.
"Quando a vida se mostrar apática para você, se organize, compre as passagens, junte um dinheiro ou mexa nas suas reservas e vá viver a vida!" Foto: Gerada por IA

Quando mais jovem eu ouvia dizer que viajar era trocar a roupa da alma.

É meio complicado trocar a roupa da alma porque às vezes o valor total gasto é de uma roupa de grife, de alta costura, das maiores marcas do mundo, mas, se organizando e sendo um pouco irresponsável financeiramente a gente consegue trocar essa roupa e depois cumprir com todos os nossos compromissos cotidianos.

Como todo brasileiro classe média baixa, pra fazer algumas coisas que demandam muito dinheiro, a gente tem que tirar daqui e dali pra fazer este investimento. Tem que cortar alguns supérfluos e deixar algumas contas para quando a gente voltar de viagem. Mas é o que eu sempre digo: quando você voltar, as contas vão continuar ali, te esperando e você vai ter que pagar, de qualquer jeito, então, se permita.

E você já parou para pensar que vivemos pagando contas, todos os meses, quase todos os dias, impostos sobre tudo, taxas altíssimas, não me parece justo viver uma vida só pra trabalhar, pagar contas, comer e dormir. Isso é existir e a gente precisa VIVER!

E viver pra mim é viajar!

Eu amo viajar porque quando eu volto é como se a minha vida tivesse reiniciado do zero, pra melhor, sempre.

Eu amo a vida que eu tenho, mas quando eu saio do meu círculo e vejo novas possibilidades, é como se a vida me mostrasse as infinitas possibilidades, como se a vida esfregasse na minha cara que eu sou capaz de muito além do que eu acredito, eu me sinto GRANDE.

E volto enorme… nutrida!

Eu volto expandida e muito mais eu!

“Mas é o que eu sempre digo: quando você voltar, as contas vão continuar ali, te esperando e você vai ter que pagar, de qualquer jeito, então, se permita”. Foto: Gerada por IA

Conhecer pessoas, visitar lugares turísticos, registrar esses momentos, se arriscar, tudo isso nos faz sentir vivos e, por consequência, dá mais energia para seguirmos no nosso cotidiano por mais um tempo.

Então, se eu puder te dar um conselho, seria: troque a roupa da sua alma sempre que der.

Mas não espere as condições perfeitas pra isso, faça essas condições “acontecerem”.

Não podemos esperar os problemas da família se resolverem, não podemos esperar o trabalho se acalmar pra poder viajarmos em paz, não podemos esperar o curso terminar pra viajar só nas férias porque nem sempre as férias do curso bate com as férias do trabalho, não podemos ser irresponsáveis, mas não podemos viver só correndo na rodinha do ratinho de laboratório que as obrigações sociais e financeiras nos colocam involuntariamente dia a dia.

Viajar nos dá a sensação de expansão mental, contato com novas comidas, sons, lugares, pessoas, cenários, estimula o nosso cérebro, isso deixa a nossa mente mais aberta e criativa, como se tivéssemos “arestas novas” de percepção.

Além disso, a experiência da viagem nos traz o “efeito contraste”, o contraste entre as novidades da viagem e a familiaridade quando voltamos à rotina, isso pode gerar prazer e gratidão pelo conforto e segurança do conhecido, mas também uma leve melancolia pós-viagem.

Viajar reorganiza a nossa identidade, faz a gente se ver em novos contextos. Às vezes, descobrimos que lidamos melhor com imprevistos do que imaginávamos, na volta isso se traduz em uma revisão interna da nossa identidade e valores.

Outro ponto é o impacto na percepção de tempo, que é a impressão de que o tempo se expandiu, porque vivemos muitas experiências diferentes em pouco espaço de tempo. A vida toma uma dose de intensidade que nos tira da programação normal e isso muda a forma como percebemos os dias.

E não dá para falar em viajar sem falar também em imprevistos, não é mesmo?

“Movida pelo impulso, peguei 57 km de estrada, em cima de uma moto, rodeada de malas e bolsas, a (pasmem) até 135 km por hora”. Foto: Gerada por IA

Vou contar uma historinha breve pra vocês. Nesta última viagem que eu fiz, há quase duas semanas, eu comprei uma passagem pela Rota até Salvador; o ponto sempre foi na Hiper Pão, na BR, vizinho à rodoviária, que já está em funcionamento (mas que eu não sabia até então). Então, fui eu até a Hiper Pão esperar o ônibus. Cheguei com 20 minutos de antecedência, e aí deu o horário e nada de ônibus, passaram-se 10 minutos depois do horário de embarque e nada do ônibus ainda, até que apareceu um guarda noturno que me alertou que o ônibus saía da rodoviária, ali do lado. Corri até a rodoviária e o ônibus tinha saído há uns 15 minutos. Prontamente liguei pra o meu motoqueiro, Adalto, e tentei alcançar o ônibus de moto com ele, afinal, estava em risco, passagens de avião, ingressos de shows, planos, sonhos, e eu sou ariana, né? Eu sempre corro atrás do que eu quero de verdade, custe o que custar.

Mas eu não analisei bem, fui movida pelo impulso, peguei 57 km de estrada, em cima de uma moto, rodeada de malas e bolsas, a (pasmem) até 135 km por hora e, adivinhem? Não alcancei o ônibus.

Ainda fomos até Caldas do Jorro na tentativa de esbarrar com ele no caminho, mas não rolou também.

Fiquei em um posto de gasolina, em frente à rodoviária do Jorro, das 2h da manhã até as 5h, enquanto esperava um carro de linha (o ÚNICO que encontrei e que tinha vaga) do João, conhecido como João Crente, que conseguiu me deixar no aeroporto faltando 40 minutos para o meu embarque, que seria as 9:45h da manhã.

Ufa, uma aventura, né? Pois é, este imprevisto expandiu a minha concepção de limites, ampliou também o que eu conheço em mim mesma sobre os meus próprios limites, porque se você me perguntasse se eu aceitaria viver tudo isso pra concluir essa viagem, talvez eu dissesse um sonoro NÃO.

Mas essa confiança que eu tive de que tudo iria dar certo (e eu repetia isso minuto a minuto, “vai dar tudo certo”) voltou comigo dessa viagem, treinou minha capacidade de adaptação mesmo em pequenos desafios do dia a dia.

Viajar mexe com a gente porque atua em áreas da nossa vida como memória, emoções, identidade e percepção de tempo e espaço. É literalmente um “reset psicológico” que nos dá energia, que deixa saudade, mas que, sobretudo, nos faz sentir VIVOS!!!!

Então, quando a vida se mostrar apática para você, se organize, compre as passagens (este é o primeiro passo), junte um dinheiro ou mexa nas suas reservas e vá viver a vida!!! A vida é curta demais para você só existir. Vai viver enquanto ainda está vivo!

Kim Fontes é colunista de Retratos e Fatos, designer, comunicadora, assistente social e ativista das causas LGBTQIAPN+

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