Kim Fontes: Solitude ou solidão, eis a questão…

Há muito tempo não sou mais uma pessoa tão apegada a ninguém, gosto de estar sob minha companhia, sou aqueles seres humanos que precisam de espaço, de um tempo a sós
"Somente naquele cenário caótico e inédito foi que eu aprendi a gostar de estar na minha própria companhia". Foto: Gerada com IA

O pós-pandemia e o isolamento involuntário nos colocaram em um cenário que muitos de nós evitamos por opção ou pela correria da vida: conviver com nós mesmos.

Até esse momento eu, particularmente, saía todos os finais de semana, sempre que dava estava fora de casa, rodeada de pessoas, consumida pelo barulho, não deixava minha mente falar, até porque se ela falasse demais logo eu criaria uma paranoia que engatilharia uma crise de ansiedade.

Sair, interagir, badalar… por muito tempo foi um mecanismo que usei, uma válvula de escape, não me agradava da minha própria companhia, sabia que em algum momento eu iria puxar meu próprio tapete e entrar numa espiral de questionamentos e inseguranças, então, naquela altura, estar só para mim era solidão das brabas, era como se eu tivesse deixando a vida passar.

O cárcere involuntário da pandemia fez com que eu, na iminência de uma morte por infecção respiratória, tivesse que me isolar do mundo físico, como todos. Mas a conectividade das redes sociais foram um suspiro em meio ao “desapego” abrupto, perdemos o acesso ao toque físico, mas mantivemos as conexões através do toque de uma tela de smartphone.

“Se isolar nesses tempos modernos se tornou uma opção cada vez mais frequente e pode estar relacionada à sobrecarga de estímulos que vivemos estando hiperconectados”. Foto: Freep!k

Centenas de lives de artistas pra ocupar a nossa necessidade de lazer e cultura, eu mesma participei de inúmeras lives no Instagram, mas, somente naquele cenário caótico e inédito foi que eu aprendi a gostar de estar na minha própria companhia. Isso foi muito valioso pra mim, não fosse o fato de que eu gostei DEMAIS da experiência de ficar só comigo mesma e, depois do período pandêmico, busquei manter um certo isolamento social continuado.

Para quem trabalha home office (meu caso) fica mais fácil se manter em casa. Usei meu templo para ler meus livros, fazer meus rituais de beleza, trabalhar, fazer a minha comida (adoro cozinhar), dançar sozinha, cantar sozinha enquanto arrumava a casa, estudar e, cada dia mais, fui me viciando no meu refúgio encastelado.

Mas aí, certo dia, minha tia veio até mim aqui em minha casa e perguntou se eu estava deprimida, já que não me via mais saindo de casa, o que me abriu um caminho de autoanálise interno que ecoou por alguns dias na minha mente: “Será que eu estou deprimida?”

A verdade é que eu tinha virado uma chave no meu próprio estilo de vida e estava tudo bem. Coisas da maturidade, talvez.

Mesmo assim, comecei a pensar se estava vivendo uma solidão ou se estava curtindo minha solitude.

Desde então, vejo que o caminho que venho escolhendo é da minha solitue.

Há muito tempo não sou mais uma pessoa tão apegada a ninguém, gosto de estar sob minha companhia, sou aqueles seres humanos que precisam de espaço, de um tempo a sós, virei a chave e agora me sinto uma pessoa muito completa vivendo a minha vidinha no meio na minha redoma, gosto de estar entre os amigos, mas necessito fechar a porta e encontrar o meu silêncio, minha paz, minha bagunça organizada. A verdade é que eu sou uma pessoa com alto vício em liberdade e estar só me confere esse sentimento em plenitude, sem obrigações sociais constantes, gerenciando meu tempo ao meu bel prazer, sem qualquer responsabilidade que não seja comigo mesma. Egoísta? Talvez.

Só que, certo dia, me peguei pensando: quando é que a solitude pode virar solidão?

Eu acredito, de verdade, que ambos os estágios emocionais já são características da nossa personalidade e para embasar as minhas ideias fui buscar na fonte do conhecimento as informações necessárias para que você leitor/leitora (que não tem as mesmas características que eu) identifique se você está mais propenso a viver uma solitude ou tentar escapar da solidão.

Vamos começar do começo e identificar a diferença dos dois termos:

Solitude – é quando você, conscientemente, escolhe por estar só, para refletir, descansar, se reconectar, enfim, nessa experiência o silêncio e ausência de outros ao seu lado não te gera dor, mas, sim, bem-estar. A solitude é a presença de si mesmo de forma enriquecedora e tem aspecto positivo.

“Tome um tempo pra si com responsabilidade e contemple a maravilha que é conviver com a única pessoa que está ao seu lado todos os dias da sua vida e que te conhece profundamente: você”. Foto: Freep!k

Solidão – é a sensação de estar sozinho, mesmo quando deseja estar acompanhado, pode trazer um sentimento de vazio, tristeza, abandono, inadequação, falta de conexão com os outros e independe de estar sozinho ou não. Quantas vezes você não estava rodeado de pessoas, literalmente, e mesmo assim se sentiu sozinho?

Se isolar nesses tempos modernos se tornou uma opção cada vez mais frequente e pode estar relacionada à sobrecarga de estímulos que vivemos estando hiperconectados, repletos de notificações chegando a toda hora, redes sociais que tomou muito do nosso dia, inundam nossa cabeça de informações.

E nesse excesso de informação sobrecarregamos nossa mente que impacta diretamente na nossa saúde emocional e, se isolar, pode ser muito positivo para que possamos dedicar tempo para refletir, organizar os pensamentos, recuperar a energia e muito mais.

Não dá pra não colocar em pauta também os problemas de confiança que todos nós enfrentamos. O aumento da violência, as fake news, a polarização política e o descontrole emocional atrelado a ela, a superficialidade das relações fazem com que algumas pessoas prefiram se recolher, evitando conflitos e frustrações (e eu me incluo MUITO nessa parcela aqui).

Parece que socializar está nocivo à nossa existência atualmente.

Outro ponto que se destaca é que as pessoas não andam mais dispostas a manterem relações sociais forçadas, que não lhe fazem mais bem, e isso também pode ser um reflexo pós-pandêmico, afinal, quando se percebe a fragilidade e a importância de uma vida plena, você percebe que não vale mais a pena alimentar círculos que não te fazem bem, não compensa, é injusto com você.

É importante se ater a esses detalhes e se policiar, pois, outro fator muito contundente que ocasiona o isolamento é a depressão e ansiedade. Para alguns o isolamento não é escolha, mas consequência de condições emocionais que dificultam a convivência social.

Neste caso, é importante o cuidado da saúde mental para que o problema não evolua para uma fobia social ou para que você possa retomar a qualidade de vida.

“Quando se percebe a fragilidade e a importância de uma vida plena, você percebe que não vale mais a pena alimentar círculos que não te fazem bem, não compensa, é injusto com você”. Foto: Freep!k

A partir do momento que o isolamento é uma escolha consciente, que você se retira quando quer, que sabe que pode voltar ao convívio quando quiser, isto traz paz.

É importante dizer que a solitude é uma forma de isolamento, mas que preservar as suas conexões, ou seja, mesmo curtindo estar só, você mantém os laços com a família, amigos.

Agora, quando o isolamento não é escolhido, quando traz sensação de tristeza como já mencionamos, quando tem uma duração excessiva e se prolonga por semanas ou meses, quando a pessoa não sabe explicar porque evita contatos, interrompe suas conexões e vínculos, é o caso de observar as bandeiras vermelhas que a vida está te mostrando e buscar a ajuda de profissionais.

 

Se esses sintomas aparecem com frequência e intensidade, pode ser o indicativo de que o isolamento não é solitude, mas sim um reflexo de solidão profunda, ansiedade e até depressão.

Se você se identifica com isso, eu vou te dar algumas sugestões para mudar a sua realidade que é:

Estabelecer um tempo definido para ficar só;

Use esse tempo para um propósito que aumente a sua calma (ler, escrever, ouvir música, estudar);

Mantenha pequenos vínculos ativos;

“A verdade é que eu sou uma pessoa com alto vício em liberdade e estar só me confere esse sentimento em plenitude”. Foto: Freep!k

Pratique exercícios físicos leves, boa alimentação, atividades de autocuidado como caminhadas, banho quente, skincare;

Use esse tempo para autoconhecimento registrando suas emoções, ideias, metas em um diário;

Após um tempo ficando só, combine algo com alguém;

Use esse tempo para pintar, escrever, cozinhar, qualquer expressão criativa transforma esse tempo em fonte de prazer;

Evite excesso de telas e redes sociais;

Cultive a espiritualidade, medite, respire, sinta-se presente;

Peça ajuda se necessário.

Bem, dado o manual de instruções para você buscar viver tempo de qualidade na sua própria companhia, entenda sempre que:

Solitude fortalece (nutre o interior, recarrega energias).

Solidão adoece (suga a energia, gera vazio e afastamento).

Tome um tempo pra si com responsabilidade e contemple a maravilha que é conviver com a única pessoa que está ao seu lado todos os dias da sua vida e que te conhece profundamente: você.

Kim Fontes é colunista de Retratos e Fatos, designer, comunicadora, assistente social e ativista das causas LGBTQIAPN+

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