Kim Fontes: Celibato Voluntário – Detox de Homem vem virando tendência nas redes sociais

E parece que entre as mulheres o jejum sexual está virando uma opção bastante aderida no momento segundo relatos nas redes sociais, e neste artigo eu vou te levar a refletir porque ficar sem sexo vem virando uma tendência e um novo estilo de vida que tem ganhado bastante adesão entre o público feminino.
O celibato não é sobre estar sozinho, mas pode ser uma ótima alternativa para a gente voltar a focar mais no que mais nos interessa: nós mesmos. Foto: gerada por IA

Já vem um tempo que eu vejo nas redes sociais mulheres falando sobre a possibilidade de aderirem a um novo estilo de vida que envolve o celibato voluntário na expectativa de fazer um detox de homem. Mas o que é isto?

O celibato é uma prática que sempre esteve muito relacionado à cultura religiosa cristã, onde o indivíduo opta por não se casar. A priori esse era o significado do termo, que também é compreendido atualmente como uma de suas práticas, que é a abstinência sexual por vontade própria, onde a pessoa opta por não ter relações sexuais com outra pessoa por um tempo ou por tempo indeterminado.

Entre matchs que viram susto, dates que terminam em dor de cabeça e orgasmos que só chegam quando o vibrador entra em cena, muita gente resolveu abraçar o celibato voluntário, aquela escolha consciente de ficar sem transar um tempo e recuperar o sorriso perdido.

E parece que entre as mulheres o jejum sexual está virando uma opção bastante aderida no momento, segundo relatos nas redes sociais, e neste artigo eu vou te levar a refletir por que ficar sem sexo vem virando uma tendência e um novo estilo de vida que tem ganhado bastante adesão entre o público feminino.

Na leitura deste artigo, você não deve fazer a interpretação dele de maneira generalizada, aqui eu trago relatos que refletem camadas e aspectos da nossa sociedade, mas não é unânime e não se aplica a todos os homens, combinado?

O descontentamento das mulheres heterossexuais (ou de qualquer gênero e sexualidade que se relacione com homens) com seus parceiros sexuais e amorosos não é algo novo. Desde que nos entendemos por gente, sempre ouvíamos aquela amiga da nossa mãe (ou pela própria), nossa tia ou nossa colega de colégio reclamar do tipo de relação ou reciprocidade que tinham com seus parceiros, da maneira como eram tratadas, de como se sentiam incompletas ou desrespeitadas dentro da relação. Todo mundo já ouviu algo assim na infância ou na adolescência, certo?

Com o passar do tempo, os tipos de relacionamento foram ganhando novos formatos, contornos e nomes, mas uma coisa permanece: o descontentamento das mulheres com seus parceiros. Foto: Freep!k

Com o passar do tempo, os tipos de relacionamento foram ganhando novos formatos, contornos e nomes, mas uma coisa permanece: o descontentamento das mulheres com seus parceiros.

Esses dias eu estava no Instagram vendo um post que falava sobre uma nota da Luana Piovani onde ela comentava que não tinha mais fé nos homens para se relacionar, embora ainda apreciasse a “espécie”. Nos comentários, uma chuva de retaliações masculinas, com comentários depreciativos sobre ela e outras mulheres, sobre sua idade, sua pele, enfim, comentários altamente misóginos e que desmascaram uma tática frequente de homens inseguros: desqualificar a mulher para se sentirem superiores e aparentemente mais confiantes.
Essa insegurança por parte de alguns deles tem afetado interesse das mulheres em se abrirem para novas experiências, no receio de se esbarrarem com este tipo de exemplar, que só se sente mais “macho” quando estão do lado de mulheres inseguras, e esse é um dos pontos.

Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, sua independência, sua autonomia, sua tripla jornada para dar conta da vida pessoal, profissional e dos afazeres domésticos, a mentalidade da mulher foi mudando, as mulheres se encontram mais seguras e autônomas. Hoje, as mulheres não querem um parceiro apenas para desfilar de mãos dadas na rua ou em eventos sociais, elas querem se sentir ouvidas, acolhidas, respeitadas, uma postura e um reposicionamento afetivo que entre os homens ainda não tinha sido vista até então, e que, aparentemente, não aprenderam a lidar ainda.

Enquanto as mulheres foram mudando suas posições sociais, a maneira como eram inseridas no mercado de trabalho, conquistando, assim, independência e empoderamento, alguns homens se mantiveram iguais, com os mesmos padrões, a mesma mentalidade social, privilégios, poucas mudanças comportamentais, vemos que existe até um crescimento do conservadorismo arrastado por uma parcela dos homens conhecidos nas redes sociais como Red Pills, que pregam também um celibato moral e atacam as mulheres para poderem camuflar sua incapacidade de manter o interesse de uma mulher por seus costumes antiquados e machistas.

Ainda temos que lembrar o crescente número de jovens e adolescentes que estão começando na vida agora e se autointitulam “incel”, que é uma subcultura online de homens brancos, héteros que se definem incapazes de encontrar uma parceira romântica ou sexual, apesar de desejarem ter. Aparentemente, a nova geração também já está vindo com defeitos antigos, mas isso é assunto para outro artigo talvez.

Além do mais, atualmente, as meninas têm mais liberdade sexual, isso não as eximem de serem julgadas, mas hoje as mulheres podem ficar com quem quiserem (se quiserem), têm o artifício das redes sociais, aplicativos de relacionamento para desbravar mais opções de relações, ou seja, conseguiram uma liberdade de escolha que deveria ter ajudado na construção de relacionamentos, mas não foi isso que aconteceu.

A mentalidade da mulher foi mudando, as mulheres se encontram mais seguras e autônomas. Foto: Freep!k

Com a acessibilidade a mais opções e diversidade, para alguns homens, esses mecanismos viraram “cardápios sexuais”, o que afundou o compromisso e superficializou as relações, afinal, se eles podem pegar várias, por que iriam ficar com uma só?

Ainda com a liberdade sexual, está crescendo o número de mulheres que preferem se satisfazer sozinhas com auxílio de objetos sexuais ao invés de se depilarem, gastarem seus cremes de pele, seus perfumes caros, suas lingeries, passar horas fazendo maquiagem e cabelo, para sair com um cara que vai fingir interesse, até conseguir o que quer e depois sumir sem qualquer compromisso ou responsabilidade afetiva, por medo de serem honestos e sinceros com mulheres que preferem lidar com a verdade do que toda aquela encenação repetitiva e pouco criativa da qual já estamos exaustas.

As mulheres estão ficando desestimuladas de se manterem em relações heteronormativas.
Entre as demandas enaltecidas por mulheres nas redes sociais está o desejo por homens que saibam ouvir “não” sem drama, que entendam a diferença entre assédio e elogio e que assumam responsabilidade emocional nas relações. Para elas, isto é o mínimo (e é!), mas para alguns deles elas estão querendo demais.

E aí você me pergunta: mas são todos os homens que fazendo isso, Kim?

E a resposta é: NÃO!

Ainda existem homens sérios, responsáveis, respeitosos, comprometidos, mas se relacionar com esse tipo de homem é uma roleta russa: você vai ter que ir atirando até acertar, e é nessas tentativas de acerto e erro que muitas mulheres estão se cansando antes de serem atingidas.

Se você senta dez minutos para conversar com qualquer mulher sobre relacionamentos, em algum momento ela vai puxar o assunto sobre infidelidade, violência, DSTs, desrespeito, ghosting, abusos físicos e psicológicos, logo, a imagem que temos é que não compensa mais o desgaste emocional e físico por uma aprovação social ou 20 minutos de sexo meia boca (e por falar em boca, muitos nem gostam de fazer oral nelas).

E isso não são relatos de mulheres solteiras traumatizadas, não. Mulheres que permanecem em relacionamento relatam as mesmas queixas, inclusive uma das frases que mais escuto de mulheres casadas ou recém separadas é: “se eu largar desse (companheiro) eu não quero outro casamento nunca mais”.

Na internet, já temos um termo para este desencanto coletivo: heteropessimismo.
Uma pesquisa publicada pela Folha mostrou que mulheres heterossexuais tem até 52% menos orgasmos do que seus parceiros homens.

Podemos somar a isso o censo do DataSenado de que 30% das brasileiras relatam que já sofreram de um tipo de violência de um parceiro em um relacionamento de longo prazo.

Outro ponto que encontramos durante a pesquisa para esse material é uma prática antiga nas relações afetivas, mas com novo nome: o Mankeeping. Não sabe o que significa isso? Pois muito que bem, vou te explicar.

Mankeeping é o esforço contínuo (geralmente de uma mulher) para MANTER um homem em um relacionamento – emocionalmente, fisicamente, ou mesmo em termos de aparência e comportamento. Por exemplo, é quando as mulheres são responsáveis na relação por escolher a roupa do parceiro, marcar consulta para ele, cuidar da alimentação, ajudar a lidar com as emoções, assumir a maior parte da carga emocional ou doméstica, redirecionar comportamentos considerados “imaturos” ou “preguiçosos”, causando uma carga mental desigual em relacionamentos heterossexuais.

Resumidamente, Mankeeping é quando a parceira vira uma “mãe” para seu companheiro.
E eu não vou nem entrar na pauta dos altos índices de infidelidade ou violências sofridas pelas mulheres, senão, o artigo viraria um livro.

Com o passar do tempo, os tipos de relacionamento foram ganhando novos formatos, contornos e nomes, mas uma coisa permanece: o descontentamento das mulheres com seus parceiros. Foto: Freep!k

Pois é, enquanto as mulheres foram mudando, os homens parecem que preferiram se manter os mesmos com sutis mudanças comportamentais e, sendo assim, a conta não fecha.

Certamente você já deve ter ouvido por aí a célebre frase: Quem casou, casou. Quem não casou, não casa mais.
Será que vale a pena mesmo se empenhar tanto em uma relação sabendo que é quase certo que em algum momento você terá suas expectativas quebradas abruptamente pela falta de compromisso, confiança ou de consideração? Que sua ausência será desrespeitada e o seu corpo violado?

“Ah, Kim, mas então você sugere que a gente não se relacione mais com homens?”

Não, eu sugiro que você faça o que você quiser com a sua vida, mas será que tirar um tempo sabático para o celibato não seria mesmo uma boa opção?

Dedicar um tempo (que você dedicaria para tentar fazer uma relação dar certo) para você mesma, para os seus estudos, aperfeiçoamentos, se dedicar às suas amizades, ao seu bem-estar, sua saúde mental, seu lazer, dedicar um tempo da sua vida única e exclusivamente para você.

Como eu disse lá atrás: ainda existe sim homens respeitosos, fraternos, comprometidos e com visão de futuro e, talvez, dedicar um tempo só para você, para o seu autoamor, até limpe o seu campo de visão e faça você encontrar a pessoa ideal mais lá na frente.

E é importante salientar que fazer uma pausa casual nas relações também não significa odiar homens ou novos encontros; significa cobrar outras qualidades de vínculos.

Sexo é bom, sexo é vida, ter uma companhia é bom, ter com quem contar é valioso, mas se custa a sua paz ou a sua saúde física e mental é melhor aderirmos ao sóbrio e velho ditado: “Antes só, do que mal acompanhado”.
Com toda esta análise, podemos perceber duas coisas: o celibato não é sobre estar sozinho, mas pode ser uma ótima alternativa para a gente voltar a focar mais no que mais nos interessa: nós mesmos.

E que se o namoro heterossexual quer voltar a ser atraente, quem precisa mudar são os caras, para começo de conversa.

Esse artigo contém referências de perfis do Instagram @contente.vc @todasfridasoficial

Kim Fontes é colunista de Retratos e Fatos, designer, comunicadora, assistente social e ativista das causas LGBTQIAPN+

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