Outro dia estava nas redes sociais e o algoritmo entregou um vídeo de uma influenciadora revelando que quando o seu parceiro perguntava o porquê de “fulana” ter se separado, ela contava com detalhes tudo que estava acontecendo até culminar na separação, mas quando ela questionava a ele por que o amigo de futebol dele se separou ele não sabia dizer o motivo, porque o então amigo não teria contado a ele. Então, ela constata no vídeo que os homens não desabafam seus problemas e conflitos nem mesmo entre si, seus amigos mais íntimos.
Fiquei incrédula como aquilo era possível e, outro dia, fazendo meu cardio na academia, contei isso para um amigo que se exercitava ao meu lado, a fim de compreender se aquilo era mesmo verdade.
E ele confirmou: sim, a gente não desabafa os nossos problemas nem com os nossos amigos.
Em outra ocasião, agora conversando com um paquera, ouvia ele contando suas histórias, algumas bem intimas, enquanto dizia em meio a elas “eu nunca contei isso para ninguém”, “nem minha mãe sabia disso”, “você é a primeira pessoa que eu conto isso”.
Ouvir esses relatos me ascenderam um alerta: quando os homens pedem ajuda? Se eles não desabafam seus problemas com ninguém…
Existe no ideário social que os homens têm que ser fortes, provedores, protetores, que não podem demonstrar vulnerabilidade, que homens que expressam seus sentimentos e seus medos são menos viris. Bobagens.

Acontece que estamos passando por um colapso mundial de saúde mental, ao qual os homens não estão imunes e atinge homens, mulheres, ricos, pobres, brancos, negros, amarelos, héteros, gays, bi, trans, lésbicas, enfim, todos estão suscetíveis, mas, por que os homens têm que ser mais fortes? Por que só eles não podem demonstrar seus medos, suas fragilidades, suas inseguranças sem correrem o risco de serem ridicularizados? Pasmem, a resposta para isso tudo é uma só: machismo.
O machismo é a principal causa de morte e violências sofrida contra as mulheres no Brasil (e no mundo). Entretanto, este problema não atinge só as mulheres, os homens também são alvos silenciosos e reflexos das pressões do machismo estrutural.
Essa concepção de que eles não podem ser frágeis e vulneráveis, que não podem se deprimir, que serem ou estarem mais sensíveis fazem deles “menos homem”. Em uma sociedade que diz repetidamente que “homem não chora, não tem medo de nada, resolve tudo sozinho”, essas mensagens silenciam esses homens, os envergonha de demonstrarem sentimentos tão humanos como o medo, a intimidade, o amor e tudo que é silenciado é somatizado, ou seja, tudo que não expomos nós acumulamos e vira doença no nosso corpo, apresentando-se de maneira física e/ou mental. E não sou eu que estou dizendo isso, é a ciência.
Os dados levantados durante a produção desse artigo são alarmantes e um dos reflexos do silêncio que os homens se obrigam ou são obrigados a viver para manterem as aparências, a imagem de provedor, de bem-sucedido, de másculo, de seguro se refletem no alto índice de adoecimento mental que culminam muitas vezes (e não é exagero dizer) em suicídio.
Vamos aos números:
Aproximadamente 1.337 homens cometem suicídio diariamente.
Globalmente, os homens têm cerca de 02 vezes mais taxas de suicídio do que as mulheres.
Do ano 2000 ao ano de 2017, os números de suicídio entre homens aumentaram 75%.
Segundo o DATASUS, de 1996 a 2017, a cada 04 pessoas que cometeram suicídio no Brasil, 03 eram homens.
Os números alarmantes de tentativas “bem-sucedidas” se devem ao método usado; homens tentam contra a sua própria vida com armas de fogo trazendo um resultado mais letal, enquanto mulheres, geralmente, recorrem a práticas de autointoxicação.
Outro ponto que pesa para a letalidade dos homens é a falta de busca por ajuda profissional. Ainda existe muito preconceito por parte dos homens em recorrerem a terapia, ajuda psicológica ou psiquiátrica por conta própria, para enfrentarem suas questões de saúde mental, afinal, homens também se deprimem, e esta depressão desperta neles o sentimento de vergonha, fraqueza, impotência (para além da apatia que é frequente em quem apresenta essa quadro clínico) e vem carregado de todos os outros preconceitos e estigmas que todas as pessoas que se descobrem deprimidas enfrentam, o que pesa ainda mais para o maior número de casos de suicídio entre eles (lembram do que eu disse antes? Tudo que não é dito/verbalizado é somatizado e muito dessa soma se expressa por meio do desenvolvimento de transtornos de ansiedade, depressão, burnout etc.).
As mudanças abruptas na vida, a situação de rupturas inesperadas que ponham à prova sua força, sua condição financeira, seu papel de provedor, sua visão de homem bem-sucedido intensifica seu sofrimento e é outro fator determinante para que essa prática acometa mais homens.

Precisamos, enquanto sociedade, levantar esse debate, mudar essa narrativa de que homens têm que ser inabaláveis, que sua força física resume sua masculinidade, que é preciso estar resistente a tudo, custe o que custar.
Precisamos normalizar que homens podem e devem pedir ajuda, que tenhamos ouvidos atentos e livres de julgamentos quando um amigo, um parceiro, um pai, um irmão, enfim, cria coragem pra expor suas fragilidades.
Um dado muito importante e que revela que estamos sendo negligentes com as subjetividades e os sentimentos dos homens e que foi encontrado durante a pesquisa para esse artigo é o fato de que 05 em cada 10 homens revelaram que gostariam de falar sobre os seus sentimentos de outra maneira.
Embora os homens sejam mais objetivos que as mulheres nas questões práticas da vida, quando se fala de sentimentos, as mulheres estão muito mais evoluídas e possuem uma rede de apoio muito mais aberta para ajudá-las.
Mas você que está lendo esse artigo pode se perguntar: então, como podemos ajudar os homens que nos rodeiam?
A resposta pode ser uma pouco complexa porque essa ajuda exige mudanças estruturais na nossa sociedade, como, por exemplo, modificar a ideia dos papéis dos homens em sociedade, ou seja, desmistificar essa ideia de força atrelada à masculinidade, à imagem de único provedor, lembrar que proteger inclui que ele esteja bem de saúde para que possa proteger aos outros e desenvolver entre eles o pensamento de que em alguns momentos eles podem ser frágeis sem medo, podem chorar sem culpa, que mudanças podem e irão acontecer e que se essas mudanças tirarem deles o papel de provedor por um tempo, está tudo bem, porque as coisas também podem mudar para melhor depois; e conscientizá-los que, em algum momento, quem protege, também pode ser protegido, entre inúmeras outras possibilidades.
Mas o mais importante de tudo é equilibrar as relações de gênero, trabalhando desde crianças com os nossos pequenos as expressões de machismo e como combatê-las, bem como suas consequências, afinal, não bastasse o machismo ser a principal causa da morte das mulheres em nossa sociedade, ele também é direta e indiretamente responsável pelo adoecimento e pela morte dos nossos homens.
O respeito à diversidade, à individualidade e à subjetividade dos outros é fundamental para que se compreenda que eles também podem exigir esses direitos de volta quando eles o entregam na nossa sociedade, ficando mais fácil assim de acolhê-los.
Por fim, naturalizar sempre que possível a necessidade de se recorrer à terapia quando achar necessário, afinal, só uma mente sã faz um homem completo, parafraseando Ney Matogrosso, um homem com H.
Portanto, que possamos deixar bem claro aos nossos amigos, irmãos, companheiros, pai, tios, avôs que quando as coisas estiverem pesadas demais para eles carregarem, que eles têm a quem recorrer, que existe alguém que respeita seus sentimentos, que se importa e que se interessa em acolher suas dores, seus medos, o sofrimento deles sem julgamentos, sem medo de terem suas fragilidades expostas. Que eles saibam que podem e devem pedir ajuda quando o peso sobre seus ombros esteja mais forte do que eles podem suportar e, sobretudo, que pedir ajuda é coisa de Homem.
Kim Fontes é colunista de Retratos e Fatos, designer, comunicadora, assistente social e ativista das causas LGBTQIAPN+
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